VOGUE US: Adele do outro lado

A caminho da Heart & Hustle, uma academia particular em West Hollywood, onde me juntarei a Adele para o treino de segunda-feira de manhã, tenho a nítida sensação de que a Rainha de Copas está prestes a me colocar à prova.

É inevitável até certo ponto. Adele tem feito sessões pesadas de levantamento de peso e treinamento em circuito diariamente — duas vezes por dia se sua ansiedade estiver alta — por três anos e contando. Também é verdade que se, digamos, o mundo inteiro enlouqueceu quando viu sua perda de peso significativa e revelasse um monte de teorias desinformadas e opiniões desnecessárias sobre sua perda de peso, uma maneira de definir o recorde e recuperar a narrativa seria envergonhar um jornalista em sua academia.

Quando ela chega, esgueirando-se pela porta dos fundos usando uma lycra da cabeça aos pés, meu destino está claro. Adele não está apenas em forma. Ela é uma casa de tijolos, com uma definição muscular que é visível através das leggings. Heart & Hustle é um estabelecimento simples, de propriedade de dois caras de Nova York e Filadélfia — a entrada dos fundos foi projetada para se parecer com algo de Goodfellas — e um deles, Gregg Miele, está aqui para liderar nosso treino. Em minutos, Adele está indo para a cidade em uma elíptica e eu estou a apenas alguns metros de distância, girando em outra máquina, já sem fôlego.

OLÁ, DE NOVO – Separação, maternidade e a ansiedade da fama estão presentes no novo álbum de Adele. Blazer Gucci. Camisa da coleção Ralph Lauren. Editor de moda: Tonne Goodman.

Ela começa a me encher de perguntas, se agilizando de um jeito unicamente encantador que faz você ceder-se a fazer a mesma coisa. Quando isso é sustentado durante um período de tempo, isso resulta em uma turbo-speed confissão que pode somente ser transmitida com uma linha do tempo

2 minutos e 50 segundos se passaram: Adele menciona que ela tem problemas na coluna. Eu digo a ela que eu tenho duas hérnias de disco. Nós concordamos que ela tem as mesmas hérnias de disco (nos locais L5 e L6).

3 minutos e meio se passaram: enquanto dava duro no elíptico, Adele diz: “Eu estou sempre um pouco de ressaca nas segundas de manhã”. Lockdown me fez beber vinho todos os dias da semana.” Ela balança a cabeça. “Estou bebendo cada vez mais cedo.”

Seis minutos se passaram: Adele disse que ela deve ter passado mais tempo com Miele do que com qualquer pessoa nos últimos 3 anos. “Todas essas outras pessoas apareceram dizendo que eles tinham sido meus treinadores,” ela disse “puta gente estranha. Eu nunca os conheci na minha vida!“

Nove minutos se passaram: Eu pergunto se a COVID a abalou emocionalmente. Adele diz que muitos dos problemas emocionais que ela enfrentou com os seus amigos, ela havia enfrentado no ano passado, durante o seu divórcio (Adele foi casada com o diretor de caridade Simon Konecki por 2 anos. Eles têm um filho de 9 anos, Angelo.) “Todo mundo teve que enfrentar os seus próprios demônios porque eles tinham tempo de sobra e nada para se distrair com,” ela afirma, “Eles tiveram que enfrentar eles mesmos em isolamento. Enquanto que eu tinha feito a mesma coisa no ano anterior.”

Onze minutos depois: de volta ao assunto do álcool e do bloqueio. “Minha primeira tentativa de emergência no supermercado foi comprar Whispering Angel e ketchup”, diz Adele, referindo-se ao seu rosé favorito. “O Whispering Angel me transformou em um cachorro latindo. Não me fez sussurrar. “

Doze minutos depois: digo a ela que, quando o lockdown foi encerrado, me senti como uma Edie saindo de Grey Gardens. “Eu tive alguns dos piores pêlos encravados que já tive na minha vida”, ela responde.

Isso continua por uma hora, enquanto Adele passa por todas as máquinas de peso e eu murcho da maneira de alguém que não vê o interior de uma academia desde 2016. Ela passou muitos dias e noites pandêmicas aqui, malhando enquanto um filme exibido na TV. A série Rocky era uma das favoritas, o que pode ser parcialmente responsável pelas luvas de boxe que ela pendurou em uma parede próxima. (Um diz FUCK, o outro ORF.)

Adele começa a cantar algumas vezes ao longo do dia que passo com ela. É apropriado que a primeira vez que ela o faça, seja para cantar uma música da trilha sonora de Rocky – uma música que, se você já viu algum dos filmes, provavelmente irá conjurar imagens em câmera lenta de um Sylvester Stallone lubrificado correndo no praia em shorts golfinhos e meias tubulares.

Em vez disso, imagine uma Adele, que agora é tão atlética quanto aquela voz dela, fazendo agachamentos profundos com Deus sabe quantos quilos de peso em seus ombros, cantando com seu vibrante rouco e singular:

“Eu estava apenas cumprindo as regras e não estava feliz”, diz ela. “Nenhum de nós fez nada de errado. Nenhum de nós machucou um ao outro ou algo assim.” 

A casa de Adele em Beverly Hills se parece muito com uma casa de campo inglesa, exceto pelo fato de ter cerca de 6.500 pés quadrados. Eu a encontrei lá depois do nosso treino e nos acomodamos em poltronas em seu jardim bem inglês. Ela está vestindo o que parecem ser calças de cashmere e uma elegante camisa branca de botões, apenas um dos botões abotoados, revelando uma figura esguia de ampulheta e decote sem sutiã.

Adele se esforça para proteger a voz, principalmente depois que foi submetida a uma cirurgia em 2011 para interromper uma hemorragia nas cordas vocais. Portanto, parece significativo que, quando pergunto quais eventos levaram ao seu “Ano de Ansiedade” , ela comece com dois programas que teve que cancelar no verão de 2017. “Acho que uma vez que minha voz descansa, ela não quer voltar por um tempo ”, diz ela. “Acho que foi isso que aconteceu. O ímpeto foi embora. ” Os shows foram no Estádio de Wembley, e cancelá-los significava cancelar para 200.000 pessoas. “Eu não posso performar se eu não estiver bem, porque obviamente fiz uma cirurgia anos atrás. Portanto, não havia nem mesmo forçado a voz. Eu estava devastada.”

“Então eu acertei meu retorno de Saturno” Adele disse, levantando seu pulso esquerdo para me mostrar uma tatuagem. É Saturno, o planeta, com um desenho de Los Angeles no meio. “É onde eu perdi o enredo.” Demora 27 a 32 anos para Saturno orbitar totalmente ao redor do sol e retornar à posição em que estava quando você nasceu, explica Adele. “Quando isso acontecer, pode abalar a sua vida”, diz ela. “Isso te abala um pouco: Quem sou eu? O que eu quero fazer? O que me deixa realmente feliz? Todas essas coisas.”

Ela não culpa o divórcio pelo retorno de Saturno, mas esse foi um dos resultados. “Eu estava apenas cumprindo as regras e não estava feliz”, diz ela. “Nenhum de nós fez nada de errado. Nenhum de nós machucou um ao outro ou algo assim. Era só: quero que meu filho me veja realmente amar e ser amado. É muito importante para mim. ” Ela diz que ela e Konecki terminaram por algum tempo antes de contarem às pessoas. (Adele pediu o divórcio em 2019) “Desde então, tenho estado em minha jornada para encontrar minha verdadeira felicidade.”

VERDADEIRO AZUL – Adele descreve como passou um ano de ansiedade – e perguntas. “Quem sou eu? O que eu quero fazer? O que me deixa realmente feliz? Todas essas coisas.” Vestido Balenciaga Couture. Brincos Jennifer Fisher.

O que esse processo pedia? “Bem, minha terapeuta me disse que eu precisava sentar junto da minha eu de 7 anos de idade. Porque ela foi abandonada. E eu precisava me encontrar com ela e realmente dizer como eu me sentia quando estava crescendo. E falar sobre os problemas com meu pai. O que eu estava evitando.” E quais eram esses problemas? “Não ter certeza se alguém que supostamente deveria te amar te ama, e não te prioriza de qualquer maneira quando você é pequena. Você se acostuma com isso. Então meus relacionamentos com homens no geral, na minha vida toda, sempre foi: Você vai me machucar mas eu vou te machucar primeiro. É tóxico e me impede de realmente achar felicidade.”

“A academia se tornou meu tempo. Eu percebi que quando eu estava me exercitando, eu não sentia nenhum tipo de ansiedade. Nunca foi sobre perder peso.”

Adele elabora: “Algumas vezes, com meu próprio filho, ele falava comigo de um certo jeito e eu o cortava. M*rda, com meu próprio filho. Eu levo muito pro coração o que ele está dizendo, quando o que ele realmente está dizendo é Não, eu não quero ir pra cama.” Em relacionamentos com homens, ela assumia uma posição defensiva, já com a expectativa de que não daria certo. “E estar tudo bem com isso, porque você tinha que lidar bem com isso quando era mais nova.”

O pai de Adele, Mark Evans, um encanador galês, morreu em maio deste ano, de câncer. A relação deles já estava tensa há muito tempo. Evans e a mãe de Adele, Penny Adkins, se separaram pouco tempo depois do nascimento de Adele, fazendo Adkins cuidar da filha sozinha — primeiro em Tottenham, depois em Brixton e em West Norwood. Depois que Adele ficou famosa, Evans vendeu uma história sobre ela para o jornal Sun. (Adele foi visitar Evans antes dele falecer. “Eu sei que ele me amava, e nós conseguimos fazer as pazes antes dele morrer,” ela me conta. “Quando ele faleceu, eu meio que tive uma reação física. Aquele medo deixou meu corpo.” Ela adiciona: “Minha mãe foi incrível quando meu pai estava nos momentos finais de sua vida. Ela ficou lá e ajudando.”)

O que ajudou Adele a passar por seu Ano de Ansiedade? “Muitos banhos sonoros. Muita meditação. Muita terapia. E bastante tempo comigo mesma.” A academia também foi importante: “A academia se tornou meu tempo. Eu percebi que quando eu estava me exercitando, eu não sentia nenhum tipo de ansiedade. Nunca foi sobre perder peso. Eu pensei, ‘Se eu consigo deixar meu corpo fisicamente forte, e eu posso ver e sentir isso, então talvez um dia eu possa deixar minhas emoções e minha mente fisicamente fortes também.’” Ela começou com a lombar e com a barriga: “Eu tenho uma coluna ruim e tive uma cesariana. Então nada estava acontecendo lá embaixo.” (Quando ligo para Miele, seu treinador, mais tarde, ele confirma que o objetivo de Adele nunca foi perda de peso. “O objetivo era ficar mais forte, fisica e mentalmente. Ela ficou muito atraída aos exercícios de movimento, e especialmente a treinamento de força. Tão atraída que ela começou a fazer sessões duplas.”)

O progresso foi demorado e longe de linear. “Eu teria uma noite agradável com meus amigos,” ela diz, “e então eu acordava como se um tsunami estivesse vindo atrás de mim.” Como a taurina que ela é, ela gosta de agendar as coisas, então a imprevisibilidade da sua ansiedade foi dolorosa para ela. “Eu me lembro de estar sentada lá com dois de meus amigos”— ela aponta para uma mesa longe, no campo — e eu estava, tipo, ‘Quando eu vou parar de me sentir assim?’ E eles responderam, ‘Daqui a um tempo.’ E eu fiquei tipo, ‘Sim, mas quanto tempo vai levar?’ E um deles chorou e ficou tipo, ‘Eu não sei. Vai ser uma jornada.’ E realmente foi.”

Seus amigos de infância são todos da Inglaterra, e como isso aconteceu antes da pandemia, ela podia visitá-los. Mas, muitas vezes, ela precisava contar com os amigos de Los Angeles, incluindo uma amiga de quarenta e poucos anos que vive na vizinhança. “Ela ficava, tipo, Mmm. Hm. É, eu já passei por isso antes. Eu me senti assim uma vez. Eu estava lá desabando. Tipo, chorando e chorando e chorando. E ela ficava tão calma.”

Uma conversa em particular se destaca. “Eu disse pra minha amiga, Sinto como se eu estivesse em uma montanha íngreme, tentando chegar ao topo. E ela respondeu, tipo, Você vai chegar lá. E vagarosamente você vai deslizar abaixo e cair. E aí vai ter outra montanha de m*rda. E eu fiquei, tipo, Eu nem superei essa montanha ainda. E ela respondeu, Isso é a vida. Adele me mostra a tatuagem de uma montanha no seu pulso direito, que ela fez em 2019.

Alguns dos momentos mais difíceis envolviam Angelo. No geral, Adele diz, que o divórcio foi tranquilo, até onde um divórcio pode ser. Konecki mora no outro lado da rua, em uma casa que Adele comprou pra ele, e eles tem guarda compartilhada (e fazem noite de filmes em família normalmente). Até mesmo nos momentos difíceis, Adele tinha fé de que estava fazendo a coisa certa: “Se eu conseguir alcançar o motivo de eu ter me separado, que foi a procura pela minha própria felicidade, mesmo tendo deixado Angelo bem triste — se eu conseguir achar essa felicidade e ele me ver nessa felicidade, então talvez eu consiga me perdoar por isso.” Mas ela não podia preveni-lo da dor que estava causando enquanto isso. Um dia, quando ele tinha seis anos e meio de idade: “Ele disse na minha cara, Você consegue me ver? E eu respondi, Uh.. Sim. E ele disse, Porque eu não consigo te ver. Bem, minha vida toda ruiu naquele momento. Ele sabia que eu não estava ali.” Ela decidiu ter conversas recorrentes com Angelo sobre o que estava acontecendo. “Foi daí que eu comecei a compartilhar as coisas com ele.”

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Ela também começou a ir ao estúdio. Ela escreveu uma música para Angelo um dia depois dele ter dito que não conseguia a ver. Com o tempo, o álbum se tornou um jeito de explicar as coisas para ele — algo para ele escutar quando estiver mais velho. “Ele tem tantas perguntas simples pra mim que eu não consigo responder, porque eu não sei a resposta. Tipo, Por que não podemos mais morar juntos? Não é isso que pessoas fazem quando se divorciam. Mas por que não? E eu fico, tipo, Eu não sei, p*rra. Não é o que a sociedade faz. E: Por que você não ama mais o meu pai? E eu respondo, Eu amo o seu pai. Eu só não estou apaixonada por ele. Eu não consigo fazer isso ter algum sentido para uma criança de nove anos de idade.”

Por essa e outras razões, o novo álbum é diferente dos anteriores. “Eu percebi que eu era o problema,” Adele diz. “Porque todos os meus outros álbuns eram tipo, Você fez isso! Você fez aquilo! Vai se f*der! Por que você não pode me visitar? E eu fiquei tipo: P*ta m*rda, na verdade, eu sou o problema constante! Talvez seja eu!

Eu perguntei se ela ouviu algum icônico álbum de divórcio enquanto fazia o dela — estou pensando em I Do Not Want What I Haven’t Got de Sinéad O’Connor — e Adele responde que ela não sabia se estava fazendo um álbum de divórcio. Ela não tem certeza se ele é um, na verdade. “Ele não é um dos meus ex-namorados. Ele é o pai do meu filho.” Se o novo álbum é um álbum de divórcio, então é um tipo diferente de álbum de divórcio. “Foi mais como se eu tivesse me divorciando de mim mesma,” ela diz, explodindo em uma risada que parece um balão zarpando por um lugar enquanto esvazia. “Só fiquei, tipo, Vadia, sua bagunça do c*ralho, se recomponha, c*ralho!”

“É sensível pra mim, esse disco, porque eu o amo tanto,” Adele comenta. “Eu sempre digo que o 21 não pertence mais a mim. Todos o levaram para seus corações. Eu não vou largar este. Este é o meu álbum. Eu quero compartilhar ele com todos, mas acho que nunca vou largá-lo.”

Estar perto da Adele cidadã é esquecer que ela também é aquela outra Adele, a cantora de músicas que revelam sua alma. A Adele cidadã é implacavelmente modesta e sempre tira sarro de si mesma. Pela sua música, sabemos que a outra Adele está debaixo da zona fótica.

Eu consigo ter um vislumbre da outra quando suas novas músicas estão tocando na sua cozinha verde-água. Sentada em um banquinho, ela recosta, sua cabeça pende para baixo e seu tronco balança, enquanto suas pálpebras tremem, como se ela estivesse em um transe.

A primeira música tocando é a primeira faixa do álbum, um apelo angustiante de uma balada piano, cujo refrão é: “Go easy on me baby / I was still a child / Didn’t get a chance to / Feel the world around me.” A voz dela faz diferentes e impossíveis coisas do jeito Adele com o refrão “go easy,” e embora a música comece a ganhar um tom eufórico, no final, me sinto golpeada. “Então é essa,” ela diz baixinho. “Você gostou?” (Talvez a coisa mais surreal do que estar na cozinha de Adele enquanto ela toca as novas música pra você é a revelação de que ela se sente nervosa e vulnerável fazendo isso.)

“É sensível pra mim, esse disco, porque eu o amo tanto,” Adele comenta. “Eu sempre digo que o 21 não pertence mais a mim. Todos o levaram para seus corações. Eu não vou largar este.”

Ela coloca outra música na fila. “A próxima música é a que eu escrevi quando fui para o estúdio um dia depois de Angelo ter dito ‘Eu não consigo te ver’.” Tem uma certa combinação de elementos — um groove sexy dos anos 70, fortes instrumentos de corda, e uma letra ainda mais forte — imediatamente me vem a cabeça Marvin Gaye. (“What’s Going On” foi uma “grande referência” no álbum, aparentemente.) “My little love”, Adele canta em um registro vocal mais grave. “I see your eyes / Widen like an ocean / When you look at me / So full of my emotions.” Entre os versos da música estão trechos das conversas que ela teve com Angelo no Ano da Ansiedade, que foram gravados pela sugestão do terapeuta da cantora. A música acaba com partes de uma mensagem de voz bruta e marejada que ela deixou para um amigo. Ela explica que Tyler, the Creator e o rapper britânico Skepta foram inspirações para que ela incorporasse gravações de voz em sua música. “Achei que seria um elemento legal, já que todos estiveram na minha porta nos últimos 10 anos.”

Não sei se vou sobreviver uma outra rodada de novas músicas da Adele, mas enquanto ela coloca mais quatro, fica mais claro pra mim que elas estão mapeando um avanço. A próxima é catártica, uma promessa comovente de um novo amor que mostra ela repetindo variações de: “I just want you to love for free / Everybody wants something from me / You just want me.” A quarta música é animada, feita pra ser o tipo de música que te faz rir enquanto você chorar, apesar do seu peso emocional C“Otherwise we’d all kill ourselves, wouldn’t we?” E aí entra um hino alegre. Junto de um órgão gospel, ela canta: “Let time be patient / Let pain be gracious.” Mais para o final da faixa, um coro formado por seus amigos aparece, cantando: “Just hold on, just hold on,” várias e várias vezes. “O que todos eles estão cantando é o que meus amigos falavam pra mim [Aguenta firme],” Adele explica. “É por isso que eu queria que eles cantassem, não um coral de verdade.”

A última música que ela toca é a última faixa do disco. Foi escrita e gravada enquanto uma TV no estúdio passava “Bonequinha de Luxo” no mudo, ela explicou. “Enquanto o filme terminava, nós estávamos pensando em como terminar a música, e eu disse, Nós podíamos escrever como se estivéssemos escrevendo a trilha sonora — sabe, no final do filme, quando a câmera abre o foco.” O arranjo é extravagante, retrô, cheio de instrumentos de corda e vibrato e como um romance de época, mas a letra entrega uma surpresa subversiva. A primeira frase: “All your expectations of my love are impossible.”

Nós estamos atrasadas para uma reserva de almoço no Hotel Bel-Air. Adele sobe as escadas correndo para trocar de roupa e então, reaparece com um moletom cinza e uma calça de moletom combinando. (“Você pode tirar a garota de Brixton, mas você não pode tirar Brixton da garota.”) Quinze minutos depois, durante uma rodada de Spritzers em uma sala de jantar privada em Bel-Air, nós falamos mais sobre o álbum no geral. “Eu estava tão frágil quando estava o compondo que eu só quis trabalhar com apenas algumas pessoas,” ela diz.

Ela escreveu a primeira balada piano e a música sobre Angelo com Greg Kurstin, com quem escreveu a música “Hello”. Mais tarde, por telefone, eu pergunto para Kurstin sobre como é escrever músicas com Adele. “Ela tem esse jeito de dominar tópicos extremamente complexos emocionalmente que eu nunca vi antes,” ele diz. “E também tem esse compromisso com uma ideia para uma música, onde se o primeiro verso da música fica bom para ela, nós podemos trabalhar nela por anos, aperfeiçoando-a.” Kurstin adiciona, “Ela me leva a lugares bem inesperados no piano. Algumas vezes eu toco repetidamente uma melodia por horas enquanto ela compõe a letra. É quase como uma meditação.”

SEU TEMPO “Sou uma mãe divorciada de 33 anos de um filho que está no comando. Eu sei o que quero. E eu realmente sei o que não quero. ” Adele usa camisa e calça de pijama NK Imode. Brincos Cartier.

A música do coral dos amigos e a música de “Bonequinha de Luxo” foram escritas com Inflo, um produtor do norte de Londres que trabalha muito com o DJ Danger Mouse. “Ele é brutalmente honesto comigo, como ninguém mais ousaria ser,” Adele fala sobre Inflo. “Ele meio que tem essa constante cara de peixe morto, realmente.” Outras pessoas trabalharam em músicas que eu não ouvi: os bruxos suecos do pop Max Martin e Shellback; o compositor sueco Ludwig Göransson; e o cantor-compositor canadense Tobias Jesso Jr., em uma “música muito poderosa” que ela descreve como um “momento no estilo Édith Piaf.” Assim como em seus álbuns anteriores, os vocais são demos originais porque, ela explicou, demos tem um carisma e uma urgência que se perde quando você os grava. “Eu nunca refaço meus vocais. Nunca. Nunca mesmo.”

Depois de ouvir Adele descrever seus dois anos de agitação, e depois de escutar o resultado disso tudo, algumas de suas músicas, me pergunto sobre a Adele de sete anos de idade. Qual papel a música desempenhou na vida daquela Adele? “Era minha amiga,” ela diz. “A música era literalmente minha amiga. Eu era uma filha única. A música era a irmã que eu nunca tive. É por isso que eu amo tanto a Beyoncé. Ela lançava músicas tantas vezes, que era como vê-la. Realmente parecia isso. Me fez sentir muitas coisas.”

Uma semana antes da nossa entrevista, Adele apareceu em público pela primeira vez com seu novo namorado, o agente esportivo Richard Paul. Eles foram ao quinto jogo da NBA Finals — Phoenix Suns contra o Milwaukee Bucks — e sentou na arquibancada com um dos clientes de Paul, LeBron James.

Mais cedo, Adele havia mencionado que ela e Paul se tornaram amigos e assim ficaram por um tempo mas só iniciaram um relacionamento no começo do ano. “Ele sempre esteve ali, eu só não o via,” ela disse. Mais uma rodada de Spritzers e ela me conta que eles se conheceram em uma festa, alguns anos atrás. “Eu estava meio bêbada. Eu disse: Você quer assinar um contrato comigo? Sou uma atleta agora.” Ela adiciona, “Ele é engraçado pra c*ralho.” E também: “Ele estava dançando. Todos os outros homens estavam sentados. Ele estava dançando a noite toda.”

Adele não do processo de namorar. “Tem sido uma m*rda. E 99.9% das histórias que foram escritas sobre mim são absolutamente mentirosas.” E então, logo antes de seu pai falecer, “Rich magicamente apareceu.” Ela se sente segura com Paul — “Eu não me sinto ansiosa ou nervosa ou exausta. Muito pelo contrário. É doido” — e não tem dúvidas. “Tenho 33 anos de idade e sou uma mãe divorciada de um filho, que realmente está no controle. A última coisa que preciso é de alguém que não sabe onde está, ou o que quer. Eu sei o que eu quero. E eu realmente sei do que não quero.”

A decisão de aparecer em público foi premeditada? Adele: “Eu não tive a intenção de expôr ao público. Eu só quis ir ao jogo. Eu simplesmente amo estar com ele. Eu simplesmente amo.” No entanto, o assunto foi comentado entre eles no caminho para o jogo. “Ele ficou tipo, O que as pessoas vão dizer? E eu fiquei, tipo, Que você assinou um contrato comigo. Como uma atleta. Você é meu agente. E ele ficou, tipo, Ah, tá. Beleza.”

É uma nova abordagem vinda da Adele, que geralmente resolvia os problemas da fama se isolando completamente. Chegou a um ponto onde ela considerou se aposentar da música também. Ela escreveu para seu manager: “Isso realmente não é pra mim. Não é porque eu amo a música.”

“Eu fiquei muito famosa logo quando Amy Winehouse morreu,” ela diz. “E nós vimos ela morrer bem na nossa cara.” Adele estava com medo de sair do controle também. “Eu sempre tive uma relação próxima com o álcool. Sempre fui fascinada pelo álcool. Foi o que manteve meu pai longe de mim. Então eu sempre quis saber o que era tão incrível sobre.” Mas diferentes personagens aparecem quando você está bêbado, ela diz, e quando você aparece meio louco, a imprensa quer montar uma história sobre você. “Eles caem e caem em cima de você, o que te deixa louco pra c*ralho.’

A morte de Winehouse foi um momento decisivo. “Realmente me atingiu. Eu toquei em um violão por causa do primeiro álbum de Amy. Ela é a que significa mais pra mim, de todos os artistas. Porque ela era britânica. Porque ela era incrível. Porque ela foi torturada. Porque ela era engraçada. Eu não vou deixar essas pessoas que não conheço tirarem o meu legado, minha história de mim e decidirem o que posso deixar e o que posso levar comigo.”

Ela decidiu desaparecer por muito tempo. “Eu pensei, eu vou simplesmente me trancar na minha casa. Foi o que fiz. Eu me tornei bem reclusa. Valeu a pena, acho. As pessoas se acostumaram com meu jeito de ser reclusa.” Se tornar uma mamãe ajudou também. “Às vezes eu tenho medo de pensar sobre como seria minha vida se eu não tivesse engravidado e tido o Angelo,” ela diz. Isso te ancorou? “Mais do que isso,” ela diz. “Os dois me salvaram. O Simon entrou na minha vida por um motivo real.”

Tudo que Adele faz se torna notícia, como demonstrou sua perda de peso. Sobre isso: “Meu corpo foi objetificado minha carreira toda. Não aconteceu só agora. Eu entendo porque é um choque. Eu entendo porque especialmente algumas mulheres se sentiram machucadas. Visualmente eu representava muitas mulheres. Mas ainda sou a mesma pessoa.” A pior parte de tudo: “As conversas mais brutais acontecerem entre outras mulheres sobre o meu corpo. Eu fiquei decepcionada pra c*ralho com isso. Isso me magoou.”

E ela ainda toma medidas para evitar um aumento de sua fama. Ela evitou escrever certos tipos de músicas para o próximo álbum, por exemplo. “Não tem uma bombástica ‘Hello’,” ela me conta. “Mas eu não quero outra música como aquela. Aquela música me elevou a um nível de fama que eu não quero de novo. Não estou dizendo que tenho ‘Hello’s no meu bolso. Eu só tinha noção de que eu não queria que minha história neste álbum soasse assim.

Mas ela está tentando, de pouco em pouco, integrar sua versão famosa e privada. Por exemplo, ela evitava sair para jantar ou ir a festa de aniversário de um amigo porque ela não queria que as pessoas tirassem fotos dela. Esses dias, cada vez mais, ela se pergunta: Qual a pior coisa que poderia acontecer? Com o novo álbum próximo (Adele insiste que ele saia de forma tangível — em CD e vinil — assim como nos serviços de streaming), ela começou a alertar seus amigos de L.A., “Estou me preparando para ser famosa de novo.”

Algo que com certeza será diferente dessa vez é Angelo. Ele ainda não entende que sua mãe é famosa. Eles vivem uma vida quieta quando Adele não está em turnê, e da última vez que ela estava, Angelo tinha apenas quatro anos de idade. Ele já viu sua mãe se aquecer em estádios, mas ele ia embora com Konecki ou com uma babá antes dos estádios se encherem de fãs. Isso ficou ainda mais claro para Adele quando ela levou Angelo para ver sua artista favorita, Taylor Swift, em 2018. Foi a primeira vez que ele viu um estádio cheio de pessoas. “O queixo dele caiu,” ela diz. “Eu fiquei bem irritada! Eu fiquei tipo, Com licença! É isso que eu faço, sabe! Ele disse, “Quando sairmos em turnê, posso ter um assento do meu lado com o nome da Taylor Swift para que ela venha?”

Até agora só teve um incidente na escola de Angelo. “Algumas garotas mais velhas o perseguiram, perguntando-o se eu era sua mãe,” Adele se lembra. “Ele ficou tipo: Eu acho que o nome dela é Adele, é. Minha mãe. Minha mãe.” Eu não sou Adele pra ele. Ele sentiu como se tivesse sendo alvo de bullying, porque elas estavam irritando ele. Eu disse: Isso não é bullying. Só diga, É, ela é minha mãe. Ela limpa meu bumbum,” ela brinca.

SOBRE A LUZ
Recentemente, ela tem visto amigos e se apresentado em público em Los Angeles. “Estou me preparando para ser famosa de novo.” Camisa da coleção Ralph Lauren. Calças Dior.

Talvez mais do que o lance da fama, Adele quer ter certeza de que Angelo entenda o seu privilégio. Que quando ele alcance certas coisas: “Não vai ser só porque ele é um homem branco. Também porque eu sou a mãe dele. E eu quero que ele perceba isso. Ele precisa alcançar seus caminhos na vida por mérito.” Algumas vezes Angelo tenta corrigir o sotaque de sua mãe, e ela não deixa. “Não é free, é three,” ele diz. E eu fico tipo, “Não. É free.”

Quando ela fala de Beyoncé, eu a pergunto sobre seu discurso no GRAMMYs 2017, aquele onde ela, em lágrimas, homenageou o álbum “Lemonade”. É uma amostra de como Adele leva a música, as mulheres, e a música feita por mulheres a sério o fato de que depois de horas de lembranças dos eventos mais dolorosos de sua vida, o único tópico da conversa que faz ela chorar é Beyoncé.

“Beyoncé definitivamente deveria ter ganhado e essa é minha opinião,” Adele diz. Ela achou que Beyoncé ganharia, até o início da premiação. E aí: “Eu senti: eu venci essa p*rra. Eu me senti sufocada, tipo, “eu vou ter que ir lá em cima e falar pra ela como o disco dela significa muito pra mim.” A voz de Adele começa a falhar. “Estou ficando um pouco emocionada.”

Adele foi ao camarim de Beyoncé. Na primeira visita, ela não desabafou, e depois que ela saiu, ela explodiu em lágrimas. Konecki levou ela de volta e o publicista de Beyoncé tirou todos da sala. “Eu só disse pra ela, tipo, o jeito que o Grammy funciona, e as pessoas que controlam a premiação no topo — eles não sabem o que um álbum visual é. Eles não querem apoiar a maneira como ela está avançando o cenário musical e as coisas que ela está falando sobre.”

Perguntada sobre porque o Lemonade deveria ter ganhado, Adele diz: “Para minhas amigas negras, foi um reconhecimento tão grande para elas, o tipo de tristeza minada pela qual elas passam. Por ela atingir isso certeira, e também incluir o mundo todo? Eu fiquei, tipo, Esse álbum é o meu álbum, ela sabe o que eu estou passando. Aquele álbum não foi escrito para mim. Mas eu ainda assim consegui sentir que era meu maior presente.”

Ela não quis quebrar a estatueta do Grammy no palco, aliás. “Eu estava torcendo as minhas mãos e a parte do gramofone saiu.” Mas algo engraçado aconteceu depois. O prêmio que te dão no palco é falso, e quando o de verdade chegou pelos correios, estava quebrado. “Ele quebrou durante a entrega.” Adele não mandou consertar. Ela colocou a estatueta em uma prateleira e colocou um pedaço de fruta na parte quebrada. “Tem um limão nela.”

Se Adele não se lembra exatamente quando ela saiu da neblina, seus amigos se lembram. Uma amiga de Londres, Laura Dockrill, que conhece Adele a mais de 20 anos me conta por email que notou uma mudança quando Adele foi ao seu casamento em fevereiro de 2020, antes do lockdown. “Ela basicamente tirou todos do palco e se convidou a cantar ‘Young Hearts Run Free’ para um pub lotado. Ela estava vestindo uma saia gigante coberta de flores brancas. Eu assisti à cena com um sorrisão e pensei, “Okay, ela voltou.”

April McDaniel, que conheceu Adele na Heart & Hustle há três anos atrás, notou a diferença na academia. “Logo quando eu vi ela eu percebi que sua aura tinha mudado,” McDaniel diz. O escritor Jedidiah Jenkins também conheceu Adele há três anos atrás, na casa de um amigo em comum em L.A. “Ela passeou durante o brunch com uma garrafa de Whispering Angel na metade,” ele escreveu. Quando eles se conheceram pela primeira vez, Adele ficou falando sobre coisas que ela nunca fez: “Jed, faz onze anos que não saio com um grupo de estranhos. Me leva numa festa onde eu não conheço ninguém?” Ou: “Na última vez que entrei no oceano eu tinha 10 anos. Nunca fui a um lago. Eu quero nadar em água natural.” Eventualmente, eles foram cumprindo as metas. Eles passaram um fim de semana em Santa Barbara, visitaram Idaho, onde Adele pulou de um barco em um lago, usando roupas.

Tanto McDaniel quanto Jenkins estão no coral de amigos que cantaram no disco. “Foi uma experiência surreal,” McDaniel diz. Jenkins lembra: “Quando estávamos todos juntos no estúdio, ela nos zoou: É impossível combinar um jantar com todos nós, mas eu convido para cantarem na p*rra do meu álbum e aqui estão, né!” No estúdio, ela era “como uma nadadora olímpica na piscina,” ele diz. “Ela rapidamente se tornou uma maestrina, mexendo suas mãos e nos dando palavras de motivação. E claro, me zoando de novo: Jed, não é seu álbum. Se encaixe mais!”

UP IN THE AIR Vestido Valentino Alta Costura.

Algumas semanas depois da nossa entrevista, eu vejo Adele pela última vez no Museu de Arte do Condado de Los Angeles para o ensaio fotográfico da Vogue. Ela está recebendo seus admiradores rapidamente com uma história sobre levar uma caneta de vape em sua bagagem para a Inglaterra, sem saber que é ilegal: “Eu me senti como Marianne Faithfull com uma barra de Mars! Eu nunca faria isso. Eu não fazia ideia.” E depois uma chamada de Angelo, que acabou de perder um dente: “O dente caiu! Bem, a fada vem hoje à noite!” Ela vai usar três lindos vestidos — rosa, azul e verde — e vai usar um deles em cima de um guindaste.

No momento mais dourado da golden hour, Adele está sentada precariamente em uma saliência, toda a Hollywood brilhando atrás dela, quando uma enorme ave de rapina pousa do outro lado. Apesar de não ter mencionado isso a equipe, esse é um evento recorrente. Beija-flores flutuaram sobre sua cabeça boa parte do tempo que passamos em seu jardim, e num momento, uma enorme libélula voou entre nós e tivemos que nos abaixar e entrar na casa. Adele explicou que isso tem acontecido bastante, desde que seu pai faleceu. “Uma vez um tentou acariciar meu rabo de cavalo!” ela disse, se referindo a um beija-flor. A ave de rapina era empregada do museu, aparentemente, para ajudar no controle de insetos, mas nenhum de nós sabia disso ainda. “Vem na minha mão!” Adele exclamou. A ave sentou na saliência por um tempo, e depois voou.

Nesta entrevista: Cabelo, Akki Shirakawa; maquiagem, Frankie Boyd.

Tradução e Adaptação: Vitoria Dias, Maria Beatriz e Diêgo Silva.