The New York Times: “Adele também chora com sua música”

LONDRES — “Eu não vou chorar” Adele diz. Ela estava ensaiando com a banda no Music Bank Rehearsal Studios, um armazém sem muito glamour no Sul de Londres, e terminou “When We Were Young”, uma das baladas mais calorosas do novo álbum, “25”. É uma canção sobre buscar a velha chama, que confessa, “Eu ainda me importo”, e, então, pergunta, “Você ainda se importa?”.

Adele pode ser desvendada em suas próprias canções, e ela não gostaria de mudar isso.

Pra eu sentir confiança em alguma música, ela realmente precisa mexer comigo. Quando eu sei que escrevi uma boa música pra mim mesma – é quando eu começo a chorar. É quando me derramo em lágrimas na cabine de voz ou no estúdio e preciso de um momento pra me recuperar.

A emoção de ter o coração na mão e, juntamente com uma poderosa voz, fez Adele, agora com 27 anos, uma das mais aclamadas cantoras e compositoras do século 21. Adele de sobrenome Adkins, ganhou o Grammy de Best New Artist com seu albúm de 2008, o “19”. Multiplicando seus fãs com “21”, seu álbum de 2011 sobre corações partidos – raiva, arrependimento, solidão, e ser justa -, que usou uma moderna produção envolta em vocais de soul clássico. “21” vendeu 30 milhões de álbuns pelo mundo, 11 milhões só nos Estados Unidos. Além do poder da voz de Adele e da música quase que artesanal, “21” comunicou uma sinceridade palpável e urgente, a sensação de que suas feridas ainda estavam frescas.

“Ela tem essa incrível intuição sobre o que é certo, o que é real e como isso a afeta”, diz Paul Epworth, que escreveu e produziu músicas para Adele no antigo e no novo álbum. “Ela é a artista mais afiada que eu já trabalhei. Ela é puro instinto, intuição pura.”

A pergunta que ficava sobre Adele em seus quatro anos entre os álbuns era como – ou se – ela conseguiria seguir seu sucesso de público com algo igualmente impressionante. “Não há nenhuma tentativa de refazer o ’21′”, disse Ryan Tedder, outro produtor e compositor colaborador tanto para “21” e ” 25 “. “Você tem sorte se alguma vez em sua vida você tropeçar em um unicórnio pela rua. As chances de você encontrar um segundo unicórnio são quase nulas, e ela está ciente disso. Eu acho que o “25” será enorme, independentemente de qualquer coisa. Mas esse não era o objetivo. Ela queria colocar para fora a melhor coisa, que era ser a mais honesta possível.”

nypost3

Neste ensaio, com um jornalista no mesmo quarto, Adele era pura música acima de tudo. Ela alternou entre antigas e novas canções, em preparação já para aparições na TV e um concerto no Radio City Music Hall, (e uma gravação na NBC) na terça-feira, 17 de novembro, três dias antes do lançamento mundial de “25” (XL/Columbia). Ela canta a plenos pulmões, capturando a vingativa batida vista em “Rolling in the deep”  entre o abafado suspense para o refrão da sua nova música, “Hello”. Seus arranjos de palco ecoam por seus álbuns, ela quer canções suficientes para os fãs poderem cantar junto.

Adele tinha em grande parte do tempo mantido silêncio do público durante as gravações do “25”. Sua recente volta foi breve, um anúncio anônimo na televisão, exibido pela primeira vez em 18 de Outubro, durante o The X Factor na Grã-Bratanha. Era o início de “Hello”, apenas os acordes, letra e voz sombrias. – “Hello, it’s me/I was wondering if after all these years you’d like to meet” sem nenhuma outra informação.

Diferente da maioria dos artistas pop de sua idade, Adele mal usa a mídia social. É um dos muitos aspectos à moda antiga charmosas de sua carreira. Mas ela tem uma conta no Twitter, e ela não pôde resistir à procura online para ver se a voz dela tinha sido reconhecida, logo após o anônimo comercial no X Factor UK. Quando ela o fez, conseguiu encontrar apenas três tweets.

Ela entrou em pânico. “Era como se eu tivesse perdido minha oportunidade”, disse Adele com uma xícara de chá, alguns dias após o anúncio. “Oh não… É tarde demais. O retorno se foi, ninguém liga.”

Mas então, ela tentou de novo, Simon Konecki, seu namorado, se juntou a ela no computador e lhe mostrou milhares de tweets histéricos. Uma vez que “Hello” foi lançado em 23 de Outubro, mais de 1,1 milhões de pessoas compraram via lojas virtuais, na primeira semana somente nos Estados Unidos. Somados as dezenas de pessoas compartilhando a música e assistindo o videoclipe.

“Hello” não só introduziu “25”; de várias maneiras, ele resume o álbum. No “25” a raiva e mágoa do “21” é superada pela conexão, reconciliação e pelo compromisso de uma vida. Como outras músicas do álbum, “Hello” é preenchido com pensamentos de distância e a passagem irrevogável do tempo, por desculpas e chegar a um acordo com o passado. Musicalmente, “Hello” tem versos com apenas voz e piano, seguidos por um forte refrão; da mesma forma, o álbum como um todo é orgânico, com baladas acústicas e o moderno pop atual.

Escrevendo o álbum, Adele já não era mais aquela com o coração partido do “21”, ela havia se tornado uma estrela internacionalmente reconhecida, aos 23 anos, uma mãe. Em outubro de 2012, ela teve um filho, Angelo, com Simon Knocki. Ela colaborou na escrita de Skyfall, o tema do filme de James Bond, que lhe rendeu um Oscar, enquanto ela estava grávida. Tatuado ao longo de seu dedo mindinho esta escrito “Paradise” (Paraíso) porque ela diz, “Ele é meu paraíso.”

Adele teve tempo para cuidar de seu bebê, enquanto pensava o que iria fazer. “Eu estava com medo“, admite. Ela ficou tão fora de controle no último álbum. “Eu estava assustada por um tempo,  em como iria voltar pra ele.” Os problemas de saúde, incluindo hemorragia vocal, ameaçaram danificar sua voz permanentemente, e a fizeram cancelar uma extensa turnê em 2011 se submetendo a uma cirurgia na garganta. “Eu não vou fazer menos turnês do que já fiz antes, mas as que eu fiz não foram muitas.”

Adele fez seus primeiros esforços para escrever novas canções em 2013. Inicialmente, ela disse: “Eu não acho que tinha conteúdo em mim pra escrever outra música. Eu não sei se deveria. Por causa de quão bem sucedido ’21’ era, pensei que ‘Talvez todo mundo esteja feliz em essa ser a última parte de mim. Talvez eu deva parar enquanto ainda estou por cima’.”

Claro que ela mudou de ideia. “Conforme o tempo passava, percebi que não tinha escolha”, ela continuou. “Eu tinha que escrever mais músicas e não há mais nada que eu queira fazer.”

Em uma entrevista antes do ensaio, Adele sentou em uma poltrona de couro preta na Soho House Dean Street, um bairro nobre georgiano repleto de antiguidades, numa sala de estar reservada pelo seu assessor para garantir a privacidade. Como o público de Adele deve ter aprendido, ela é ótima em falar abertamente, confessar suas inseguranças ou ponderar o seu dever para com seus fãs, do que para se gabar. Ela não esconde seu sotaque informal do norte de Londres, e ela alegremente fala palavrões e dá repentinas risadas.

Ela estava usando um suéter azul-escuro volumoso, converse preto de cano alto e uma calça preta larga que, admitiu, era um pijama. Eu achei que ela se tornaria moda na Grã-Bretanha. “Isso já é moda”, disse ela, e riu. “Mas para as pessoas magras.”

Ela acrescentou: “A forma como me sentia quando eu escrevi o ’21’, jamais quero sentir novamente. Foi horrível. Eu era infeliz, eu estava sozinha, triste, com raiva, amargurada. Achei que eu iria ser solteira para o resto da minha vida. Achei que nunca mais iria amar. Não valia a pena.”

Ela reconsiderou por um momento: “Bem, valeu a pena, por, obviamente, tudo que aconteceu. Mas, definitivamente, não estou disposta a me sentir assim novamente para escrever uma canção.”

Agora que ela é uma mãe, “não tenho tempo para tristezas”, acrescentou. “Eu sou a base para o meu filho e quero dar suporte à ele. E quero dar suporte ao o meu namorado também e não quero trazê-los comigo para minha arte.”

Embora ela tenha aparecido para performar “Skyfall” no Oscar de 2013, Adele dedicou grande parte do tempo que teve entre seus álbuns para “as coisas mais normais que você possa imaginar”, disse ela. “Eu estive em cada parque, cada museu, em cada shopping center.”

Decidida a ser conhecida pela música e somente pela música, Adele também recusou propagandas que a manteria na mira dos holofotes. “Se eu quisesse ser apenas famosa, ser uma celebridade, então eu não faria música, porque é tudo o que me tem sido oferecido, provavelmente, me tornaria mais famosa do que sou com minha música”, disse ela. “Os comerciais, ser o rosto de marcas, esmaltes, sapatos, bolsas, moda, maquiagens, produtos de cabelo, estrelando em filmes, fazendo propaganda de um carro, projetando relógios, embalagem de alimentos, edifícios, companhias aéreas, contratos autobiográficos. Já me ofereceram de tudo. E eu não quero me afogar. Quero fazer apenas uma coisa. Eu quero fazer algo. Eu não quero fazer propagandas.”

“Todo mundo acha que eu simplesmente desapareci, mas eu não fiz isso”, disse ela. “Eu só voltei à vida real, pois tive que escrever um álbum sobre a vida real e porque de que outra forma conseguiria ser relacionável? Se eu escrevesse sobre ser famosa – seria chato (palavrão)”.

Quando ela tentou iniciar o novo álbum em 2013, Adele estava sem ideias. “Eu não tinha um assunto”, disse ela. Ela estava tentando resistir em escrever sobre o seu filho. “Ele é o amor da minha vida, a pessoa que mais amo, mas ele não é de ninguém além de mim e do seu pai. Então, ninguém conseguiria entender isso. Além disso, nem todos os meus fãs são pais, então eles não gostariam de escutar isso.”

Até então, “Remedy” era uma canção sobre amor maternal, que restaurou a confiança de Adele e foi o ponto de partida do “25”, segundo ela. Ryan Tedder tinha a palavra “Remedy”, algumas notas no piano e a ideia de que a música podia se tratar de alguém querido; ele procurou Adele para finalizar a música. “Ela imediatamente disse: ‘Isto é sobre o meu filho’.”, lembrou Ryan. “E isso trouxe toda a letra da música. E estava finalizada, escrita e gravada no mesmo dia”.

Adele trabalhou com seus antigos produtores, como Ryan Tedder (Rumour Has It) e Paul Epworth (Skyfall), além de novos colaboradores de alta escala do pop: Sia; Bruno Mars; e os produtores Greg Kurstin (Pink, Kelly Clarkson), Max Martin (Taylor Swift, The Weeknd) e Danger Mouse (Gnarls Barkley, The Black Keys).

Ela estava decidida a não repetir a receita do “21”; ela também, pela primeira vez, descartou tantas canções quanto as manteve. “A menina provavelmente descartou facilmente 20 hits do “25” que, em algum momento futuro, irão parar nas mãos de outros artistas”, disse Tedder. “Com Adele, não é sobre ‘Posso fazer um hit? Posso cantar essa nota? Posso ter os melhores produtores?’, trata-se de: ‘Qual é a história?’.”

A história de muitas das músicas do “25” fala sobre o que guardar do passado e o que deixar para trás. As músicas mergulham nos medos e incertezas da cantora. “Million Years Ago,” uma baladinha bem delicada ao som do violão e com uma pegada de Edith Piaf, ela lamenta a juventude perdida e confessa: “Sinto como se minha vida estivesse passando e tudo o que posso fazer é assistir e chorar.”

Nos ensaios, Adele cantou “Million Years Ago” em duas versões: a primeira iniciando sem instrumental, só com sua voz de forma bem exposta. Haviam lágrimas em sua voz, mas não, naquele momento, elas estavam em seus olhos.

Clique nas fotos para conferi-las na nossa galeria em HQ!
  

Tradução: Portal Adele Brasil.