[The Guardian] Análise do show da Adele: uma lição de autocontrole no palco

Adele começa a conversar com o público após as três primeiras músicas na noite de abertura da sua turnê mundial. A cantora explica que foi aconselhada a não falar nada antes, pois poderia arruinar o momento dramático da abertura do show: atmosfera ecoante, um vídeo melodramático em preto em branco mostrando os seus olhos, a cantora subindo lentamente num palco no centro da arena e cantando o hit de seu retorno, “Hello”.

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Os responsáveis pelo show temiam que o costume de conversar com o público entre uma música e outra, desenvolvido por Adele, tirasse o drama do momento. Ela mal começa a falar e já atrai a atenção de todos para o seu estado intestinal. “Estou me cagando toda desde de manhã”, ela diz. “Problemas no intestino. Fui obrigada a tomar um comprimido de Imodium (é um remédio para combater a diarreia)”.

Honestamente, o nervosismo dela parece inesperado. Até porque ela inicia a sua turnê mundial numa posição majestosa. Adele pode se autoproclamar a maior estrela pop mundial sem medo de ser contradita: seu terceiro álbum, “25”, está comemorando a sua décima semana no topo das paradas americanas.

O “25” vendeu 100 mil cópias na América durante a última semana, acrescentadas as 19 milhões de cópias já vendidas no mundo todo. Foi, de longe, o álbum mais vendido de 2015, embora tenha sido lançado apenas no final de novembro. Isso acarretou em vendas de ingressos para as datas de sua turnê britânica, um valor de aproximadamente R$137.500,00, criando questionamentos no Parlamento. “Adele é boa, mas não é tudo isso,” disse o Membro do Parlamento de Winchester, sem justificativas.

Uma vaga sensação de incerteza paira sobre o show. Sua apresentação no Grammy este mês foi fraca e marcada por problemas técnicos. Posteriormente, ela disse em uma entrevista que o ocorrido a levou a passar o dia seguinte em lágrimas e pareceu sugerir que simplesmente sairia do palco se algo assim acontecesse novamente. Um ruído de feedback e o público de Belfast poderia ter testemunhado a maior pop star do mundo largar o palco. Contudo, é improvável que apareça outros problemas técnicos. Apesar de seus problemas no intestino, Adele parece absolutamente sob controle desde o momento em que subiu ao palco.

Sua voz soa fantástica. Com tendência a expressar-se por gestos com suas mãos, popular entre concorrentes do X-Factor, ela nunca se excede enquanto chama a atenção ao cantar notas variadas duma mesma sílaba, coisa que não se vê nesses tipos de programas de tv.

Reprodução: @Adele via Instagram.

Ela é imensamente e infinitamente encantadora durante as músicas — encantadora o suficiente para animar aqueles que ficam bem longe do palco, cantando parabéns para alguém da plateia ou convidando algum indivíduo para subir ao palco e fazer um pedido de casamento. Não há muitas surpresas quando ela canta hits como — Someone Like You, Make You Feel My Love, Chasing Pavements — mas todas são cantadas lindamente. Ela fica ótima em uma seção acústica, onde o arranjo despojado adiciona uma certa audácia a Send My Love (To Your New Lover), uma das músicas mais pop do 25.

E, além disso, ninguém vem ao show para ver Adele e ficar espantado. Há um argumento convincente de que uma das razões pela qual o “25” tem feito tanto sucesso é que as pessoas que compraram o disco — a julgar pela audiência de hoje à noite, principalmente de meia-idade — sabiam exatamente o que estava por vir quando a Adele, compreensivelmente, recusou-se a repetir a fórmula que fez seu antecessor, “21”, o álbum mais vendido do século, até agora.

E há, com toda certeza, momentos em que até os haters mais agressivos terão de admitir que existe sim um motivo por trás de todo o alvoroço, principalmente em sua performance de Skyfall. Assim como Sam Smith comprovou, escrever uma música decente para a franquia de James Bond não é mole. E o desempenho da Adele no show é uma prova de que dá pra vender uma música dramática sem exageros.

“Eu sei que talvez alguns de vocês foram arrastados até aqui, mas eu vou conquistá-los”, diz ela em um momento. A julgar pela reação de quando ela finalmente desapareceu — no mesmo palco no qual entrou — ela foi um sucesso.

Tradução por Anderson, Gabriela e Ygor.
Revisão: Anderson.
Texto original: The Guardian.