Rolling Stone: 17 coisas que você aprende em uma conversa com Adele

Quando Adele apareceu na capa da Rolling Stones no início de Outubro, o mundo ainda não tinha ouvido o “25”. O álbum e o seu primeiro single, “Hello”, estavam a semanas de quebrarem todos os recordes possíveis, desde visualizações até a primeira semana de vendas, mas Adele nem pensava nisso. “Eu não me importo se somente 10 pessoas comprarem o álbum, com tanto que essas 10 pessoas acreditem em mim”, ela diz. “Isso é a coisa mais importante para mim, eu só quero que as pessoas acreditem em mim.” Aqui vai mais de Adele sobre a sua vida e música.

Junto com “Ray Of Light”, de Madonna, o álbum “Play”, do cantor Moby, também foi uma influência às escuras no “25”.

“Eu acho que há algo de muito sagrado sobre esse álbum (Play)”, diz Adele. “O modo como ele me faz sentir. Mesmo que não tenha nada de sagrado no álbum – talvez os samples gospel. Mas aquele álbum ainda me fazer sentir viva. E eu lembro que a minha mãe tinha esse disco.”

Ela não é inscrita em nenhum serviço de música por streaming.

“Provavelmente isso é o futuro, mas, eh,” ela diz. “Eu sei existem crianças que tem, tipo, 9 anos e não sabem nem o que é a porra de um CD! Eu tenho todos os meus CDs expostos na minha casa apenas para provar o meu ponto de vista. Talvez os CDs voltem a fazer sucesso, como aconteceu com os vinis. Na verdade, eu preferiria os cassetes, só para ser uma chata! [risadas] Eu tenho todos os meus cassetes das Destiny’s Child!” (Com isso dito, a decisão de não disponibilizar o “25” por streaming foi feita em cima da hora. “No momento, nós não estamos pensando em falar com ninguém,” disse o empresário de Adele, Jonathan Dickins, no começo de Outubro. “E isso é o que estou falando para você, isso é o que tenho falado para a gravadora, e isso é o que eu tenho dito para as pessoas de diversos serviços de streaming com quem tenho conversado.”)

Ver o show da Bette Midler a ajudou a conceber ideias sobre fazer shows mais íntimos em grandes arenas

“Bette Midler é a minha heroína do caralho,” diz Adele. “Eu amo tudo sobre ela. Eu a acho tão talentosa. Eu me senti como se estivesse assistindo a última lenda viva. Uma lenda antiga. E ela foi foda. A voz dela estava incrível, o show foi maravilhoso, o humor foi maravilhoso. Foi, tipo, o melhor show que eu já vi. E foi em uma arena. Obviamente ela é a porra da Bette Midler; eu não sou Bette Midler. Mas funciona. Eu, obviamente, não vou montar um show como o da Bette Midler, porque é quase um musical, mas a coisa da conversa funcionou naquele lugar. Você depende de cada palavra.”

Ela nunca ficou completamente assustada depois de passar por uma cirurgia de hemorragia vocal em 2011.

“Só pareceu que alguém tinha fechado as cortinas, ou a porta, na minha garganta,” ela diz. “E eu podia sentir que tinha alguma coisa na minha garganta me impedindo de falar ou cantar propriamente. O meu médico foi ótimo, sabe? Ele falava ‘Está tudo bem – você tem uma doença muito comum em cantores. Eu já vi isso um milhão de vezes;  já resolvi um milhão de vezes,’ então não me senti amedrontada. … John Mayer também teve um problema vocal na mesma época que eu, e ele foi um anjo. Ele me procurou e me reassegurou.”

Dentre as muitas faixas descartadas do “25”, Adele está animada com uma música em particular, escrita com o co-compositor de “Hello”, Greg Kurstin.

“Me sinto um pouco imatura mudando de posição agora, mas é definitivamente uma ótima, ótima música”, disse. “É como a Celine encontrar o Meat Loaf, ou tipo a Barbra encontrar alguém como a Beyoncé, algo assim. É como todos as minhas fantasias com ídolos [risos]. Mas é muito, muito boa, na verdade. Nós não terminamos a tempo, e além disso eu senti que deveria ter, tipo, 32 ao invés de 27. E há definitivamente outras quatro ou cinco músicas que com certeza veria novamente. E depende também de em que lugar estou na minha vida, então poderia ser completamente irrelevante pra mim. Eu não quero colocar uma música no álbum só porque é boa se não posso me relacionar a ela.”

Ainda há músicas inéditas das gravações do 21.

“Eu só tinha mais umas duas ou três músicas,” ela disse, “mas ainda assim eram músicas muito boas que eu não iria usar, porque elas são de um período completamente diferente da minha vida e eu simplesmente não tenho mais nenhuma relação com elas. Tenho certeza que um dia elas irão ver a luz do dia, quer seja eu ou outra pessoa cantando.”

Uma das últimas músicas descartadas do “25” foi “Why Do You Love Me”, que acabou por se tornar uma faixa bônus.

“Não quero colocar uma música, porque somente eu estou completamente conectada,” disse Adele. “E com ‘Why do you love me’ senti que ninguém estava realmente conectado – meus amigos e as pessoas que trabalham comigo. Eu amei a música, mas todo mundo ficava apenas ‘hum’ toda vez que a ouvia.”

Ela gostaria que as pessoas falassem normalmente com ela.

“As pessoas simplesmente tendem a não falar comigo”, disse. “Ou então vou ficar tipo ‘Oh, o que você tem feito?’ E aí elas vão começar a me dizer, e no meio da frase vão falar ‘bem, não é nada muito interessante comparado ao que você faz’. Mas eu quero ouvir sobre o que as outras pessoas estão fazendo. E essas são as coisas sobre a qual posso escrever. É algo sobre o qual estou interessada em escrever, você sabe, a vida de outras pessoas ao invés de sempre sempre sobre mim mesma.”

Ela não tem nenhum problema com Phil Collins — que ficou triste por não ter conseguido compor com ela para o “25”.

“Nos encontramos e ele foi muito gentil”, diz ela. “Ele é um gênio. Mas nosso encontro em Londres foi cedo demais, mais ou menos assim que iniciei a gravação do álbum. E eu tinha essa música em mente e não me lembro se dei à ele uma cópia da canção ou um refrão ou algo do tipo… E então, eu dei pra trás. Pensei: ‘Ah, eu não estou preparada’. E ele me chamou de fujona [risos]! Acho que ele entendeu que decidi não trabalhar com ele, mas, na verdade, decidi que não queria escrever um álbum, não naquele momento, e fim de conversa. Mas é isso, não há rinchas, pelo menos não da minha parte.”

Ela canta todos os vocais de apoio em seus álbuns.

“Leva uma eternidade!” ela diz. (O colaborador de “Hello”, Greg Kurstin adiciona: “Ela é a sua própria banda e sabe exatamente o que fazer.”)

Adele tem uma estranha ligação com “Hello”.

“Eu tenho essa lembrança sempre que canto essa música”, diz ela. “Lembro de estar caminhando pela minha antiga rua quando tinha mais ou menos oito anos, e sabe quando você caminha ao lado de uma grade com todos aqueles ferros e você começa a arrastar os dedos neles? Quando estou cantando essa música, consigo sentir isso nas minhas mãos de uma forma tão real. É tão estranho. Não sei o porquê disso, já que nada de especial aconteceu naquele dia. Eu estava no parque com a minha mãe. E no fim da nossa antiga rua, parecia como um lixão, onde você despeja tudo o que você não quer mais, e me lembro de passar por lá e ver uma fila de pessoas pela rua, esperando para jogar fora uns microondas velhos e recordo disso de uma forma tão clara. Então, isso é realmente estranho, e não sei por que penso nisso quando canto “Hello”, pois a música não fala sobre nada desse dia. É estranho demais!”

Ela teve conversas intrigantes com Bono do U2, que por acaso, é seu fã.

“Ele parecia genuinamente curioso em relação a mim”, diz. “Ele estava sempre perguntando sobre o meu método e eu estava tipo: ‘Ainda não estabeleci um método ainda!’ Eu ainda sou uma cantora com só dois álbuns na carreira! Mas ele disse uma coisa muito interessante. Eu disse a ele, algo no estilo, ‘Como você consegue escrever tantas canções surpreendentes sobre uma única pessoa?’ (Se referindo à esposa dele). E ele disse que as músicas eram todas sobre Deus, o que achei incrível pra caralho. Nunca me ocorreu que se dá para escrever “With or Without You” a respeito de Deus. E não sou religiosa, mas prezo profundamente a religião, pois quando meu avô morreu, não acho que minha avó teria sobrevivido sem a sua fé, de modo que o conforto que a religião dá às pessoas, é algo que admiro muito”.

Ter um filho a deixou praticamente incapaz de guardar rancor.

“Eu passei a me preocupar muito”, diz ela. “E então você começa a dar prioridade a certas coisas, pois você simplesmente não tem a capacidade de ficar se importando com uma porrada de merda. Portanto, tive que deixar muitas coisas pra lá – e não gosto de deixar nada pra lá! Gosto de guardar rancor! E o ’25’ é um álbum sobre chegar para todos que já amei de qualquer forma possível e admitir que algumas vezes eu estava errada.”

O álbum 25 quase foi introduzido com “Send My Love (To Your New Lover)” ao invés de “Hello”.

“Eu estava dividida entre as duas”, diz Adele. “Mas acho que ‘Hello’ representa um pouco mais o álbum, e porra, a canção é perfeita para um retorno. É bastante coloquial, o que eu acho importante. “

Ela geralmente não fica cantando pela casa.

“É estranho”, diz. “Quer dizer, eu canto Frozen — ‘Let It Go’.”

Ela não vê a si mesma como uma estrela pop.

“A música pop não me move”, diz ela. “Mas eu amo isto. Gosto que a música pop seja a trilha sonora da minha vida, e isso me deixa animada para o meu dia ou coisas do tipo, dessa forma, o pop tem um papel enorme em minha vida. Mas não acho que conseguiria me submeter a ser uma estrela do pop. E também não tenho nenhum desejo de ser. Sinto que quanto mais disposto você estiver a ficar se reinventando, como Madonna — e eu acho que a Taylor tem feito um belo trabalho nesse quesito — menor é a sua capacidade de fazer isso. Acredito que é um mundo perigoso para entrar, pois dura muito pouco e não tenho a capacidade de ficar me reinventando um monte de vezes e mudar facilmente de gêneros, estilos e tendências musicais. Simplesmente não tenho a capacidade de fazer isso. ”

Ela não tem intenção de largar a carreira.

“Acredito que vou gravar álbuns pelo resto da minha vida”, diz Adele.

Tradução por Ygor Pinheiro, Gabriela Teixeira e Anderson Júnior

Revisão por Victor Oliveira.