NY Times: Adele fala sobre amor, fama e “25”

Adele é o assunto do momento. Drake se ofereceu para lavar suas roupas. Britney Spears declarou o seu amor por “Hello”. Mas as conversas sobre a Adele estão mais focadas em números — e em sua (extremamente lucrativa) decisão de não liberar seu novo album, o 25, para plataformas de streaming — do que em sua música.

Numa entrevista para Jon Pareles, o mais importante crítico de música pop do New York Times, entretanto, a cantora e compositora explicou o por quê do jeito em que lança suas musicas, com uma perspectiva de uma música que ainda é fã de musicas.

Eu quero lançar um album,” ela disse, “e não vou lançar quatro singles antes de lança-lo. Não quero que o meu álbum seja devorado.”

Na entrevista, Adele também falou sobre a mudança em sua voz e seu estilo vocal, sobre lidar com sua crescente fama, sua turnê no ano que vem e seu processo artístico. Estes são os resumos da entrevista:

Sobre a fama:
“Eu acho que é muito mais fácil ceder a fama do que resistir a ela. Você tem que ficar se policiando diariamente. É muito tentadora, a fama, mas não é a vida real. Por que você não iria querer viver uma vida de verdade? Eu sinto como se pudesse aproveitar mais a fama se de vez em quando eu me deixasse levar um cadinho.”

Sobre ego, seu ultimo álbum, o “21” e satisfação artística:
“Todo artista tem um ego que precisa ser alimentado. Eu não componho musica apenas para mim mesma. Eu componho música para que alguém diga: “Isso soa muito bem”, “é uma canção amável”, “isso me faz pensar em certa coisa”, “isso faz com que eu me sinta de tal forma”. Então eu fico mais do que feliz por isso ter acontecido com o “21”, com “Someone Like You” e com qualquer outra musica que eu tenha. Porque é isso que toda pessoa criativa espera: que o que eles venham criar seja lembrado. Eu amo as músicas que produzi. Eu as acho ótimas. Por um tempo, me senti um pouco desconfortável com as músicas, mas eu rapidamente cheguei num ponto onde tudo era maravilhoso. E foi exatamente para isso que eu as compus.”

Sobre seu estilo musical:
“Eu não quis escrever algo como meu último álbum, nem como algo parecido com os anos 60 ou nada desse tipo. Eu queria fazer algo mais moderno, e acho que fiz, mesmo que tenha me inspirado bastante nos compositores dos anos 70 para o 25. Ao invés de entrar no soul ou estilos assim, estou fazendo coisas com a minha voz que são um pouco mais modernas. E essa foi uma decisão bem consciente.”

Sobre o estrelato pop:
“Quando eu era criança e havia shows por aqui como, por exemplo, ‘Top of the Pops’, ‘CD: UK’, ‘Live & Kicking’ e afins, eu queria ser uma estrela do pop. Quando eu costumava assistir as estrelas que eu idolatrava, eu queria ter a vida que eles tinham que sempre parecia feliz. Eles viviam sorrindo, com uma aparência ótima e sempre vestidos maravilhosamente. Mas eles sorriam o tempo todo, pois tinham que sorrir. Se vestiam bem, pois tinham um estilista. Sempre voando por aí, sem poder estar em apenas um lugar de cada vez — por muito tempo, quis estar em outro lugar. É só um hábito ruim. Eu ainda me sinto assim, as vezes. Não é como fugir, mas apenas saber o que está acontecendo em outro lugar. Então eu sempre me senti intrigada com tudo isso. Eu não queria ser uma estrela do pop, mas eu queria ter a vida dos meus ídolos, pois parecia tão brilhante. E agora que tenho, não parece tão brilhante assim. Porque as coisas não são como aparentam ser. Mas eu estaria mentindo se dissesse que eu nunca desejei nada disso, pois eu desejei.”

Sobre a possibilidade de uma turnê mundial:
“Eu vejo algo muito solitário em cantar para tantas pessoas por noite, por tanto tempo. O que soa muito estranho, porque você canta para cerca de 20 mil pessoas todas as noites, mas você vai embora sozinha. Você não vai para casa e divide a cama com 20 mil pessoas e faz uma festinha do pijama e assiste filmes. Obviamente eu terei meus amigos e minha família comigo, mas o pensamento do quão solitário isso pode ser, me fragiliza mais do que a ideia de fazer a turnê mundial em si.

Sobre insônia:
“Eu tenho problemas para dormir. Quando as luzes se apagam e eu fico com a mente vazia, penso nas piores coisas possíveis. Quando fico sozinha com os meus pensamentos, a menor coisinha se transforma numa coisa enorme, então eu fico preocupada. Então, eu durmo quando estou cansada ou quando preciso dormir. Ao contrário, eu faço tempestade em copo d’água. É como ter medo de ser deixada sozinha no escuro.”

Sobre amor e ódio:
“Estou começando a perder essa coisa de odiar as pessoas. Eu não odeio mais ninguém, é meio exaustivo e eu não tenho tempo para isso. O jeito como eu amo e como eu odeio são iguais para mim. Ter energia para odiar alguém é o mesmo que ter energia para amar alguém. Você tem que dedicar seu tempo à alguém.”

Sobre amigos:
“Quanto mais sucesso você tem no seu trabalho, menor se torna a sua vida. O que é tranquilo, pois os amigos que tenho são meus melhores amigos e eles serão meus amigos para sempre e alguns deles são meus amigos desde antes da fama. Eles são minhas almas gêmeas. Se eu me deixar, eles não vão. Eles sempre me dão opiniões bem sinceras.

Sobre o relacionamento com seu namorado, Simon Konecki:
Nós estamos juntos desde que ficamos juntos, apesar do que dizem por aí. Eu estou muito feliz e acho que é por isso que me sinto tão confortável em compor sobre qualquer coisa que eu queira. Simon me deu carta branca pra isso. Ele disse: Não se importe com o que eu vou achar. Isso é o seu trabalho. Compõe sobre o que você quiser.“

Sobre a maternidade:
 “Eu Achei que seria fácil. Todo mundo faz isso. Existem de sete a oito bilhões de mamães. Todo mundo faz isso, o quão difícil pode ser? Whool! É a coisa mais difícil do mundo!”

Sobre cantar após a cirurgia na garganta:
“Acredito que consigo cantar melhor do que antes. Não sei se é por causa da minha cirurgia na garganta. Minha voz ficou muito grave durante a minha gravidez. É por isso que Skyfall é tão grave.” [Risadas.] “Agora eu posso cantar grave e depois alcançar notas mais altas do que eu era capaz de alcançar, ainda que não sejam notas que os cachorros gostariam de ouvir. Eu nunca fui muito confiante em relação a minha voz. Agora, nos ensaios ou no estúdio, eu alcanço notas que eu costumava usar falsete, pois eu ficava com medo de não conseguir alcançar. Mas agora eu subo a voz e alcanço as notas.”

Sobre trabalhar com vários produtores e colaboradores: 
“Não gosto de trabalhar com uma pessoa só. Eu fico muito entediada. Eu sou muito distraída. Não gosto de trabalhar no mesmo estúdio com a mesma pessoa e o mesmo instrumento. Não gosto disso. Eu fico realmente entediada, e eu me deixo entediada também. É por isso que não posso confiar em mim mesma como costumava fazer. E também, ao tentar fazer o mundo ter sentido para uma criança, seu vocabulário diminui. Então eu quis estar com pessoas diferentes para me estimular.”

Sobre cantar ao piano:
“Se pudesse, faria os meus shows apenas com um piano. Mas por quanto tempo você consegue entreter alguém apenas com baladinhas no piano? Então eu não me atreveria a desrespeitar alguém que pagaria para assistir o meu show com esse tipo de tédio. Mas eu amo o piano. Eu só ouço melodias com piano.”

Sobre ter assistido os shows de retorno da Kate Bush em Londres:

“O show todo se tratava do momento antes dela ser mãe e de depois de ter se tornado mãe, e o filho dela estava lá. Eu li em algum lugar, mas não sei se é verdade ou não, que o filho dela disse quando tinha dezesseis anos ‘Eu quero saber agora, por que todo mundo ama você?’  Eu fiquei muito emocionada. Depois do show eu fiquei tipo ‘Eu não quero esperar. Não quero esperar meu filho chegar aos 16, quero mostrar a ele agora’. Depois disso, decidi que não importava se ninguém quisesse que gravasse outro álbum. Eu faria um por conta própria.”

Sobre a indústria musical: 
“Eu realmente estou por fora da indústria musical. Esses altos e baixos não me interessam em nada. Mas há muitos novos artistas que eu curto, que eu sou fã de carteirinha. Eu não os escuto como artistas, mas como fã. E me sinto em relação a eles do mesmo jeito que eu costumava me sentir antigamente sobre os artistas. Eu realmente tenho que me transformar quando vou trabalhar. Tenho que me transformar pela manhã, quando estou no carro a caminho de algum lugar. Essa é a única razão pela qual continuo fazendo isso. Eu geralmente sou uma fã — menos de mim mesma.” [Risos]

Sobre os artistas atuais que ela gosta:
“Alabama Shakes. Lana Del Rey – ela simplesmente perfura a minha alma e me faz querer chorar. Eu amo a forma como ela é misteriosa. E eu amo como ela simplesmente lança um álbum e é isso.”

Sobre o lançamento do 25 sem muito aviso prévio:
“Obviamente foi estratégico. Talvez soe come se eu fosse hipócrita, mas num mundo onde as coisas acontecem tão rapidamente, por que as pessoas estão fazendo propaganda dois/três meses antes do lançamento? Não tenho tempo para ficar esperando o lançamento de um álbum que só vai ser lançado daqui a três meses. Lance o álbum e se eu gostar, eu serei sua fã para sempre.”

Sobre os altos e baixos da carreira:
“Ter alguns álbuns mais sucedidos e outros nem tanto, fazer um show ruim e dar uma entrevista ruim, tudo isso faz parte de ter uma carreira, que é uma coisa maravilhosa. O retorno e coisas do tipo, é parte do que os grandes artistas fazem. É a grande volta que é completamente épica. As pessoas sempre vão se lembrar de você e de tudo o que você fez caso retorne com algo ótimo!”

Tradução: Anderson Júnior
Revisão: Pedro Lopes